SEO negativo no igaming: por que falsas solicitações de remoção via DMCA são uma ameaça perigosa para o setor
Em artigo, Thaisa Santos, gerente de SEO da Oddsgate, analisa os riscos das falsas denúncias de direitos autorais para operadores e afiliados de igaming.
Opinião.- Se o tráfego orgânico do seu site de apostas ou cassino online despencou repentinamente — sem penalidade manual, queda na qualidade do conteúdo ou atualização de algoritmo que explique o ocorrido —, a causa pode não estar dentro da sua própria empresa. Pode estar na do concorrente.
O mercado brasileiro de igaming amadureceu rápido demais para o seu próprio bem: mais de 180 operadores disputam um número limitado de posições de destaque no Google, os padrões de conformidade aumentaram com a Lei nº 14.790/2023 e a concorrência por tráfego qualificado tornou-se brutal. Nesse ambiente, uma tática específica de SEO negativo tem se tornado cada vez mais comum e, segundo relatos de operadores e afiliados do setor, é atualmente uma das mais eficazes: a falsa solicitação de remoção via DMCA.

Neste guia, a Oddsgate reúne as informações mais recentes sobre SEO negativo aplicado ao igaming, com foco na ameaça que mais tem prejudicado operadores licenciados no Brasil: o uso abusivo do processo de remoção de conteúdo por violação de direitos autorais.
O que é SEO negativo (e por que voltou a ser relevante)
SEO negativo é qualquer ação externa deliberada destinada a prejudicar o posicionamento de um site nos mecanismos de busca. Diferentemente do SEO tradicional, que busca melhorar o desempenho do próprio site, o SEO negativo tenta derrubar um concorrente.
As táticas mais comuns incluem:
Ataques com backlinks tóxicos: compra de grandes volumes de links de baixa qualidade apontando para o domínio-alvo, na tentativa de simular spam de links.
Cópia e duplicação de conteúdo: reprodução de artigos de um concorrente e publicação em dezenas de domínios para gerar sinais de conteúdo duplicado.
Avaliações negativas falsas: campanhas coordenadas de avaliações ruins no Trustpilot, Reclame Aqui e redes sociais.
Invasão e injeção de spam: comprometimento do site de um concorrente para inserir links maliciosos ou malware.
Reivindicações fraudulentas de DMCA: denúncia de conteúdo legítimo como violação de direitos autorais para forçar sua remoção do índice do Google.
A boa notícia é que o sistema de detecção de spam do Google, o SpamBrain, atualmente ignora a grande maioria dos ataques com links tóxicos — estimativas do setor indicam que cerca de 99% das manipulações óbvias de links simplesmente não produzem efeito. Isso levou agentes mal-intencionados a recorrer a uma tática com resultado muito mais imediato — e muito mais difícil de reverter: a falsa reivindicação de DMCA.
Por que falsas reivindicações de DMCA funcionam (e por que o igaming é um alvo fácil)
O Digital Millennium Copyright Act (DMCA) é a legislação dos Estados Unidos que criou o sistema de “notificação e remoção”: qualquer pessoa pode notificar uma plataforma — como Google, provedor de hospedagem ou CDN — alegando que determinado conteúdo viola direitos autorais, e a plataforma é legalmente obrigada a remover ou desindexar a URL antes que seja realizada uma análise do mérito da reivindicação.
Esse mecanismo, criado para proteger os produtores de conteúdo, acabou se transformando em uma ferramenta de sabotagem por alguns motivos:
A remoção é automática e rápida. O Google prioriza o cumprimento das obrigações legais em relação à verificação da veracidade da denúncia — a página pode desaparecer do índice em poucos dias e, em alguns casos, em questão de horas.
O ônus da prova é invertido. A vítima precisa provar que a reivindicação é falsa somente depois de já ter perdido posições nos resultados de busca, tráfego e, no caso de operadores de apostas, potencialmente jogadores e receita.
O volume sobrecarrega os mecanismos de fiscalização. Casos documentados mostram organizações enviando dezenas de milhares de notificações fraudulentas por meio de diversas contas de e-mail. Em um caso levado à Justiça pelo próprio Google, dois operadores sediados no Vietnã foram acusados de enviar mais de 117 mil notificações fraudulentas de DMCA utilizando pelo menos 65 contas do Gmail para sabotar concorrentes.
O setor de apostas é particularmente vulnerável. Conteúdos sobre odds, regras de mercado, bônus e avaliações de operadores tendem a apresentar estruturas semelhantes entre concorrentes, o que facilita para um denunciante de má-fé alegar “cópia”, mesmo quando o conteúdo foi produzido de forma independente.
Afiliados e operadores do mercado global de apostas já descrevem o fenômeno como uma “epidemia silenciosa”: o que começou como uma ameaça de nicho no marketing de afiliados tornou-se um problema que também afeta operadores regulamentados, com alguns sites relatando dezenas — e, em determinados casos, centenas — de notificações indevidas, das quais o Google invalida apenas uma pequena parcela.
Como isso afeta operadores licenciados no Brasil
O momento não poderia ser mais sensível. Desde que o licenciamento foi centralizado pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), com a exigência do pagamento de R$ 30 milhões pela autorização de até três marcas por grupo econômico, o mercado brasileiro passou a contar com cerca de 187 operadores autorizados disputando o mesmo espaço nos resultados de busca.
Isso cria um incentivo direto e mensurável para práticas desleais: cada posição perdida por um concorrente licenciado pode significar tráfego, cadastros e depósitos redirecionados para quem realizou o ataque.
Para os operadores brasileiros, os riscos específicos de uma falsa reivindicação de DMCA incluem:
- Perda de visibilidade em páginas de conversão, como avaliações de bônus, comparadores de odds e páginas de cadastro, justamente quando o volume de buscas por marcas licenciadas está em alta;
- Danos à percepção de confiabilidade: em um setor classificado como YMYL (Your Money or Your Life), qualquer sinal de instabilidade no site — páginas desaparecendo ou links quebrados — pode prejudicar a credibilidade tanto perante os jogadores quanto nos sistemas de busca baseados em inteligência artificial;
- Efeito sobre a conformidade: operadores que utilizam conteúdos educativos sobre jogo responsável e regras da SPA/MF para reforçar os critérios de E-E-A-T podem descobrir que justamente essas páginas — muitas vezes as mais citáveis e consideradas “seguras” — são atacadas por concentrarem maior valor de ranqueamento;
- Concorrência baseada no licenciamento, e não apenas no conteúdo: como o número de operadores licenciados é público e limitado, torna-se fácil para um concorrente mapear exatamente quais domínios “valem a pena” atacar.
Como identificar um ataque de SEO negativo via DMCA
Estes são alguns sinais de alerta que toda equipe de SEO de um operador deve monitorar semanalmente:
- Quedas repentinas no desempenho de páginas específicas no Google Search Console, sem alterações recentes no conteúdo ou penalidades manuais visíveis;
- E-mails de “aviso de remoção” do Google Search Console relacionados a reivindicações de direitos autorais desconhecidas;
- URLs de alto valor desaparecendo do índice — páginas de bônus, comparativos e páginas de marcas — enquanto páginas de menor relevância continuam indexadas;
- Um padrão suspeito de timing, com várias notificações chegando em sequência, muitas vezes logo após o lançamento de uma grande campanha ou promoção;
- Reivindicações genéricas ou sem informações verificáveis sobre a suposta obra original que teria sido violada.
Consulte o Lumen Database: muitas das notificações de remoção enviadas ao Google são arquivadas publicamente nesse banco de dados independente, mantido pelo Berkman Klein Center, da Universidade Harvard. É possível pesquisar pelo domínio afetado e verificar o remetente, a data e o conteúdo exato da reivindicação — uma etapa essencial para confirmar se a notificação é legítima ou faz parte de um padrão de abuso contra determinado domínio.
Como reagir: checklist de defesa
- Monitore de forma proativa. Configure alertas no Google Search Console para notificações legais e verifique semanalmente os relatórios de “Ações manuais” e “Problemas de segurança”.
- Documente a autoria original. Mantenha registros das datas de publicação, histórico de versões e, sempre que possível, evidências da criação original — como rascunhos, registros de data e hora e controle de versões — de todo conteúdo estratégico, especialmente avaliações, páginas comparativas e materiais educativos sobre apostas.
- Envie uma contranotificação. Caso uma URL seja removida indevidamente, o Google permite o envio de uma contranotificação formal com base na seção 512(g) do DMCA e em legislações equivalentes. O documento deve incluir a URL afetada, a justificativa jurídica para o restabelecimento e uma declaração detalhada dos fatos. Se o reclamante original não ajuizar uma ação dentro de dez dias úteis, o Google restaura o conteúdo, geralmente nas posições que ocupava anteriormente nos resultados de busca.
- Faça auditorias regulares de backlinks. Utilize ferramentas como Ahrefs, Semrush ou Moz para identificar links tóxicos e mantenha um arquivo de rejeição (disavow) atualizado, mesmo que o SpamBrain já neutralize diretamente grande parte do spam de links.
- Fortaleça a autoridade técnica do domínio. Sites tecnicamente saudáveis — com HTTPS, Core Web Vitals otimizados, dados estruturados limpos e redirecionamentos configurados corretamente — são estatisticamente mais resistentes a ataques, pois o Google já os reconhece como entidades confiáveis.
- Considere medidas jurídicas. Reivindicações fraudulentas de DMCA constituem declarações falsas feitas sob pena de perjúrio de acordo com a legislação dos Estados Unidos. Para operadores brasileiros, a resposta também pode recorrer ao arcabouço jurídico nacional, incluindo uma notificação extrajudicial ao responsável e, dependendo do impacto financeiro documentado, uma ação por concorrência desleal com base na legislação de propriedade industrial e no Marco Civil da Internet.
Na prática, esse é o ponto mais vulnerável de grande parte do mercado: muitos sites de apostas e cassinos online — especialmente operadores de médio porte e afiliados — não contam com uma equipe jurídica interna preparada para responder a esse tipo de disputa dentro do prazo.
Sem alguém monitorando as notificações, elaborando contranotificações tecnicamente fundamentadas e sabendo como cruzar as reivindicações com os dados do Lumen Database, o prazo de dez dias úteis para reverter a remoção pode se encerrar antes mesmo que o operador perceba o que aconteceu.
Thaisa Santos é gerente de SEO da Oddsgate, responsável por liderar as estratégias de SEO e conteúdo de um portfólio de marcas de igaming. Construiu sua carreira principalmente no mercado brasileiro, com experiência adicional na África e no segmento de criptoativos, combinando conhecimento técnico em SEO com uma visão estratégica de conteúdo para gerar crescimento orgânico sustentável em mercados altamente competitivos e fortemente regulamentados. Sua atuação é focada em transformar problemas complexos de SEO em estratégias claras e eficazes.