O mercado de apostas online no Brasil: desafios no horizonte para uma indústria em ascensão
Com o crescimento do mercado regulamentado de apostas online no Brasil, líderes do setor destacam os desafios regulatórios, operacionais e sociais que precisam ser enfrentados para garantir o sucesso a longo prazo.
As apostas online regulamentadas no Brasil começaram oficialmente em janeiro e já superaram as expectativas: o volume mensal de apostas chegou a R$ 20 bilhões (cerca de US$ 4 bilhões) e as plataformas registraram mais de 5 bilhões de acessos só no primeiro trimestre. Impulsionado por um público majoritariamente mobile, pelo uso do Pix e pelo marco legal da Lei nº 14.790/2023, o setor teve um início promissor, mas ainda há desafios significativos pela frente, especialmente em relação à regulação, conformidade, jogo responsável e acesso ao mercado.
O Focus Gaming News conversou com líderes do setor para entender os obstáculos e as medidas necessárias para manter esse ritmo de crescimento.
Marco regulatório: um bom começo, mas ainda longe do ideal
O marco regulatório brasileiro tem sido elogiado por trazer estrutura e legitimidade ao setor, mas especialistas alertam que ele ainda precisa de ajustes para garantir crescimento sustentável a longo prazo. Kateryna Manetska, consultora jurídica da DATA.BET, reconhece os avanços da legislação, destacando “procedimentos e critérios bem definidos, como a exigência de uma empresa estabelecida no Brasil e o cumprimento das normas de prevenção à lavagem de dinheiro (AML) e de verificação de identidade (KYC)”.
Por outro lado, ela alerta para dificuldades enfrentadas por operadores menores: “Grandes empresas, com mais recursos, conseguem montar operações locais rapidamente, mas as menores podem enfrentar obstáculos, o que pode limitar sua entrada no mercado”.
Olga Levshina, CCO da BGaming, lembra que o marco regulatório continua em construção e precisa de tempo e ajustes para garantir estabilidade, especialmente na conscientização sobre o jogo responsável e na criação de mecanismos eficazes de proteção ao jogador.
Uma fonte da TaDa Gaming reforça a ideia de que o Brasil ainda pode adotar um modelo mais próximo ao europeu, com auditorias rigorosas, restrições à publicidade e mecanismos como autoexclusão e verificações de capacidade financeira.
O secretário de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, Regis Dudena, destacou o desafio de combater o mercado ilegal. “Fechar domínios irregulares é uma tarefa difícil, mas já conseguimos derrubar mais de 11 mil sites”, disse ele à Exame. Segundo Dudena, é essencial manter a cooperação com instituições financeiras e redes sociais para sufocar operadores sem licença. Ainda assim, Manetska alerta que é necessário reforçar a fiscalização.
Jogo responsável: uma urgência crescente
Com o crescimento acelerado do mercado, cresce também a necessidade de dar prioridade ao jogo responsável. A rápida popularização das apostas entre o público jovem (de 18 a 35 anos) levanta preocupações. A TaDa Gaming destaca: “A velocidade com que os brasileiros, especialmente os jovens, se adaptaram e normalizaram o jogo é inédita”.
Levshina afirma: “É fundamental implementar mecanismos sólidos de proteção ao jogador e garantir a transparência nas regras”. Manetska acrescenta que a criação de um banco de dados centralizado com jogadores autoexcluídos ou banidos será essencial para manter a integridade do mercado. Também é possível que o governo implemente medidas como limites diários de apostas e checagens obrigatórias de capacidade financeira.

Publicidade: entre a exposição e a responsabilidade
O aumento de 47% nos investimentos em publicidade em 2024 (dados da Kantar IBOPE Media) também acendeu um alerta, com projetos de lei no Congresso que propõem proibir anúncios de apostas — o que pode abalar o setor. Dudena reconhece que vetar a publicidade pode dificultar para os consumidores a identificação dos operadores autorizados. Já líderes do setor pedem diretrizes mais claras sobre os limites dos anúncios, como sugere uma fonte da Lynon’s.
No que diz respeito à eficácia das campanhas, Muriel Le Senechal, da Fast Track, defende uma abordagem mais criativa e moderna: “Sem bônus e apostas grátis, os operadores precisam inovar. Nosso sistema de recompensas ajuda a fidelizar os usuários de forma divertida e relevante”. Essa aposta na gamificação e no engajamento personalizado pode ajudar a driblar possíveis restrições à publicidade e fortalecer a lealdade dos jogadores.
Lusia Barseghyan, COO da Oddsgate, ressalta a importância da localização cultural: “Não se trata apenas de traduzir o site, mas de criar uma experiência verdadeiramente brasileira — desde os métodos de pagamento até o atendimento ao cliente”.
Desafios operacionais: KYC, conformidade e entrada no mercado
Na prática, muitos operadores têm enfrentado dificuldades operacionais, especialmente nos processos de verificação de identidade (KYC). Steven Valentine, da Comtrade Gaming, comenta: “A nova regulamentação trouxe dificuldades operacionais em relação ao KYC, o que levou a uma queda nos depósitos para muitos operadores”. Enquanto alguns conseguiram adaptar seus processos, outros optaram por trocar rapidamente de fornecedores para aproveitar a flexibilidade de operar várias marcas sob uma mesma licença.
A Lynon’s observa que os altos custos de licenciamento (R$ 30 milhões, ou cerca de US$ 5,2 milhões) e as exigências de conformidade podem levar pequenos operadores a buscar fusões ou até deixar o mercado. Manetska sugere incentivos fiscais ou condições ajustadas para esses operadores, a fim de diversificar o ecossistema e reduzir o domínio de gigantes como a Flutter Entertainment.
E os cassinos online?
Por enquanto, as apostas esportivas são o motor do setor online no Brasil, mas muitos operadores já estão de olho no lançamento dos cassinos virtuais. Zak Gusarov, da Uplatform, afirma: “O verdadeiro prêmio virá quando os cassinos online forem liberados, o que deve acontecer no próximo ano ou no seguinte”. A TaDa Gaming concorda: “Uma regulamentação mais ampla que inclua cassinos, pôquer e bingos pode impulsionar ainda mais a indústria”.
Também há expectativas em torno da legalização dos cassinos físicos no país. Um projeto de lei está parado há anos, mas segue em discussão e pode, eventualmente, impactar o segmento online.
Um caminho colaborativo para o futuro
Apesar dos desafios, o sentimento predominante é de otimismo. Aaron Axisa, da Booming Games, destaca: “A abertura e a colaboração entre reguladores e fornecedores têm sido animadoras”. Marco Pequeno, da Amusnet, completa: “Com colaboração contínua entre operadores e provedores, o mercado brasileiro tem potencial para crescer além das previsões iniciais”.
Com uma base sólida e dinâmica, o Brasil caminha para se tornar um dos maiores mercados de apostas online do mundo. Mas o crescimento sustentável dependerá de ajustes regulatórios, práticas responsáveis e inclusão de operadores diversos. Se os desafios forem bem administrados, o futuro será promissor.