A ascensão do igaming no Brasil: primeiro trimestre supera as expectativas
Em um relatório especial da Focus Gaming News, líderes da indústria compartilham como o mercado brasileiro despertou com uma velocidade e sofisticação sem precedentes.
No dia 1º de janeiro de 2025, o Brasil ativou seu mercado regulado de igaming, marcando uma mudança histórica para uma indústria que durante muito tempo foi considerada um “gigante adormecido”. Com uma população de 210 milhões de pessoas, uma cultura apaixonada por esportes e um volume pré-existente de apostas de R$ 100 bilhões (USD 17 bilhões) em 2023, as expectativas eram altas. A Focus Gaming News entrevistou representantes de empresas líderes que agora operam no Brasil para reunir informações para este artigo.
A introdução da Lei 19.740 trouxe estrutura a um cenário antes não regulamentado, emitindo licenças de operação e aplicando medidas rigorosas de conformidade, incluindo verificação KYC e monitoramento via o sistema Sigap. O bloqueio do governo a mais de 11.000 sites de apostas ilegais impulsionou ainda mais os jogadores para operadores legais, preparando o terreno para um crescimento explosivo.
Os primeiros três meses de regulamentação não apenas confirmaram o potencial do Brasil, mas também superaram as expectativas, com um volume mensal de apostas de R$ 20 bilhões (USD 4 bilhões) e uma projeção de receita bruta de jogo (GGR) de USD 5 bilhões até 2026. Líderes da indústria de todo o mundo — representando operadores, fornecedores e prestadores de serviços — compartilharam suas perspectivas sobre como este vibrante mercado evoluiu, destacando a rápida adoção das apostas via dispositivos móveis, o domínio absoluto do Pix nos pagamentos e um crescimento inesperado nos jogos de cassino como principais impulsionadores do sucesso.
Um mercado que avança a toda velocidade
A velocidade da evolução do mercado brasileiro tem sido uma surpresa unânime. “O mercado está se movendo numa velocidade incrível”, afirmou Steven Valentine, diretor comercial da Comtrade Gaming. Ele observou que, embora os requisitos de KYC tenham inicialmente desacelerado os depósitos, os operadores que otimizaram seus processos se recuperaram rapidamente, com alguns chegando a trocar de fornecedores diariamente para maximizar o desempenho.
Lusia Barseghyan, COO da Oddsgate, compartilhou a mesma visão: “Foi uma corrida desde o primeiro dia. Estávamos construindo, ajustando e refinando cada etapa para atender aos novos padrões sem perder qualidade”. A rápida mobilização de operadores, fornecedores e reguladores criou um ambiente dinâmico e colaborativo, que Barseghyan descreveu como “motivador”.
Aaron Axisa, chefe de vendas da Booming Games, destacou o entusiasmo pelo conteúdo certificado:
“Os operadores estão ativamente em busca de títulos de alto desempenho e legalmente aprovados, o que dá a empresas como a nossa uma vantagem competitiva.”
O jogo de slot Burning Classics, da Booming Games, tornou-se um dos favoritos, refletindo a preferência dos jogadores brasileiros por jogos rápidos e com alta volatilidade.
De forma semelhante, um representante da TaDa Gaming apontou o impacto surpreendente dos jogos de cassino, especialmente aqueles que têm ressoado com a cultura brasileira de jogos sociais e mobile:
“A receita bruta dos cassinos online está crescendo num ritmo acelerado, superando as projeções iniciais”, acrescentaram, citando dados da H2 Gambling Capital e Eilers & Krejcik Gaming.
Smartphones, Pix e fatores culturais
O domínio das apostas via mobile e do método de pagamento instantâneo Pix tem sido um dos grandes destaques. Um representante da Lynon relatou que 86% dos apostadores esportivos brasileiros preferem usar smartphones, impulsionados pela penetração de 81% da internet móvel no país. O Pix, utilizado por 99% dos apostadores, teve um crescimento de 200% nas transações, com 24 milhões de brasileiros adotando o sistema para realizar apostas.

“A rápida adoção do Pix e o domínio absoluto do uso via mobile foram as maiores surpresas”, afirmaram, destacando que esses fatores melhoraram drasticamente a experiência e o engajamento dos usuários.
Essa tendência mobile está alinhada com a demografia mais jovem do Brasil (18 a 35 anos), que, segundo a TaDa Gaming, normalizou o jogo como parte de um ecossistema de entretenimento mais amplo.
“Não vimos uma adoção tão rápida em tão pouco tempo em mercados anteriores”, enfatizou a empresa.
Muriel Le Senechal, gerente comercial regional da Fast Track, destacou a importância do engajamento personalizado nesse cenário competitivo: “Nosso modelo Singularity e o sistema de recompensas permitem que os operadores ofereçam experiências de jogo hiperpersonalizadas em tempo real, transformando dados brutos em engajamento significativo.”
A influência do futebol tem sido monumental, com praticamente todos os principais clubes brasileiros agora exibindo patrocinadores de apostas. “O impacto imediato dos patrocínios no futebol foi surpreendente”, afirmou o representante da TaDa Gaming. “Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a importância do futebol no Brasil, agora tem a resposta!”
Muitos operadores apostaram forte em produtos localizados com foco no futebol, capitalizando a paixão nacional pelo esporte.
Superando o rótulo de “gigante adormecido”
O apelido de “gigante adormecido” mostrou-se uma subestimação. “O Brasil passou rapidamente de potencial para performance”, disse Aaron Axisa, da Booming Games, destacando a rápida maturação e o profissionalismo do mercado.
Kateryna Manetska, assessora jurídica da DATA.BET, confirmou: “O Brasil agora é plenamente reconhecido como uma força ativa e desperta no jogo global”, com mais de 70 operadores já licenciados ou pré-aprovados.
Marco Pequeno, country manager da Amusnet para o Brasil, acrescentou: “A trajetória aponta claramente nessa direção. Estão sendo lançadas as bases para um crescimento sustentável de longo prazo.”
Celina Guedes, da EGT, enfatizou o preparo do mercado: “Os jogadores já têm acesso a alguns dos melhores produtos disponíveis, e daqui pra frente vão aproveitar experiências ainda mais alinhadas aos seus gostos.”
Steven Valentine, da Comtrade, destacou um aspecto singular do Brasil: “Fico impressionado com o quão conectados todos estão. Os operadores são abertos e dispostos a compartilhar suas experiências, o que é algo revigorante.”
Esse espírito colaborativo, somado à clareza regulatória, tem gerado confiança — e os analistas do setor já revisaram projeções para prever um mercado de US$ 10 bilhões até 2029.
Zak Gusarov, líder de vendas da Uplatform, previu que as apostas esportivas continuarão liderando, mas o verdadeiro “filé” está nos cassinos online, que devem ser lançados nos próximos um ou dois anos.
“Quando os cassinos forem lançados, os slots e os jogos com dealer ao vivo vão explodir”, afirmou, citando o amor dos brasileiros pelo jogo e a demanda latente.
Olga Levshina, CCO da BGaming, concordou, apontando “um alto nível de engajamento dos jogadores e o número crescente de operadores licenciados” como prova do potencial do Brasil para se tornar um dos principais mercados de iGaming do mundo.
Sofisticação e engajamento do público
Os apostadores brasileiros surpreenderam os líderes da indústria com seu nível de sofisticação.
“Os apostadores rapidamente apresentaram comportamentos antes vistos apenas em mercados maduros, exigindo pagamentos imediatos, amplas opções de apostas ao vivo e estatísticas detalhadas durante os jogos”, disse um representante da Lynon.
Essa maturidade também se reflete nas preferências dos jogadores. Aaron Axisa destacou o sucesso da campanha da Booming Games com o tema Ronaldinho, que “desencadeou um engajamento excepcional” ao criar uma conexão emocional com os jogadores locais.
Olga Levshina elogiou a forte participação de empresas internacionais como um sinal positivo, enquanto Kateryna Manetska destacou a eficiência das autoridades brasileiras na implementação das regulamentações e na promoção da participação local por meio de exigências como a propriedade brasileira mínima de 20%.
“O nível de profissionalismo e os padrões éticos entre as empresas têm se mantido elevados, e os jogadores estão migrando para operadores regulados”, comentou Marco Pequeno, reforçando a prontidão do mercado.
A regulamentação teve um impacto não só econômico, mas também no interesse público. Segundo um estudo da Aposta Legal, as plataformas de apostas no Brasil registraram mais de 5 bilhões de visitas no primeiro trimestre de 2025, o que equivale a 650 acessos por segundo. Isso representa um crescimento de 90% em relação ao último trimestre de 2024.
Março bateu recordes, com 1,8 bilhão de visitas, impulsionado principalmente pelos investimentos estratégicos de marketing de grandes operadores como Betano, Superbet e Bet365. Somente a Betano registrou 1,1 bilhão de acessos, crescendo 25% de fevereiro para março.
Para ilustrar: com os volumes atuais de tráfego, as plataformas de igaming brasileiras poderiam encher o Maracanã (78 mil lugares) a cada dois minutos.
Sigap e o impacto financeiro
Um dos pilares do sucesso do igaming regulado no Brasil é o Sigap (Sistema de Gestão de Apostas), um sistema de monitoramento completo desenvolvido pelo Serpro para o Ministério da Fazenda.
Até março de 2025, o Sigap processava 500 milhões de registros de dados diariamente, abrangendo 77 operadores e 174 marcas licenciadas.
Kamila Duarte, gerente do Serpro, revelou que, em apenas três meses, o sistema processou mais de 1,69 milhão de arquivos, incluindo dados sobre apostas esportivas, jogos online, carteiras digitais e perfis de usuários. Esse volume reflete não apenas o tamanho do mercado, mas também o compromisso dos operadores com o cumprimento regulatório total.
Fábio Macorin, subsecretário de Monitoramento e Supervisão, classificou o Sigap como “um ecossistema robusto para governança e transparência”, essencial para gerar confiança dos consumidores e garantir práticas responsáveis de jogo.
À medida que o mercado cresce, o impacto econômico e social das apostas online também chamou a atenção do Banco Central do Brasil. O secretário-executivo Rogério Lucca informou que os brasileiros já gastam mais de US$ 5 bilhões por mês em apostas online, 50% acima das projeções anteriores.
Um horizonte promissor
O primeiro trimestre do Brasil como mercado regulado de igaming tem sido mais do que transformador.
Crescimento explosivo, tráfego online em alta e uma base de jogadores altamente engajada e mobile-first estão redefinindo o cenário global de jogos.
O ecossistema colaborativo entre reguladores, operadores e fornecedores de tecnologia — com suporte de sistemas como o Sigap — está estabelecendo um novo padrão de governança para o setor de igaming.
No entanto, a rápida expansão também levanta questões importantes sobre responsabilidade social, comportamento econômico e sustentabilidade de longo prazo.
Por enquanto, o mundo observa atentamente como o Brasil deixa de ser um “gigante adormecido” para se tornar um verdadeiro pioneiro do igaming.
Como resumiu Zak Gusarov, da Uplatform: “Não é apenas um mercado. É um movimento.”
Um segundo artigo, detalhando os desafios futuros e as possíveis mudanças regulatórias necessárias para o mercado brasileiro de igaming após esse primeiro trimestre, será publicado pela Focus Gaming News na próxima semana.