Rio de Janeiro passa a rastrear problemas com apostas em consultas da rede pública de saúde

Rio de Janeiro passa a rastrear problemas com apostas em consultas da rede pública de saúde

Questionário foi incorporado aos atendimentos da Atenção Primária e já identificou sinais de alerta entre pacientes; casos podem ser encaminhados para acompanhamento especializado.

Principais Conclusões

  • Rede pública do Rio passou a incluir perguntas sobre apostas em consultas de rotina da Atenção Primária.
  • Em uma semana, 3.070 pacientes responderam ao questionário e quase 1% apresentou algum sinal de alerta.
  • Estratégia busca identificar comportamentos de risco antes que os problemas relacionados às apostas se agravem.
  • Casos podem ser acompanhados na Atenção Primária ou encaminhados para psicólogos, psiquiatras e CAPS, conforme o nível de risco.
  • Levantamento anterior encontrou 1.378 pessoas com registros de sofrimento relacionado às apostas, incluindo apostadores e familiares.

Rio de Janeiro.- A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro passou a investigar possíveis problemas relacionados às apostas durante consultas de rotina na rede pública. Desde agosto, profissionais da Atenção Primária fazem duas perguntas aos pacientes para identificar comportamentos de risco e direcionar, quando necessário, o acompanhamento de saúde.

O protocolo questiona se o paciente já sentiu necessidade de apostar valores cada vez maiores e se já mentiu para pessoas próximas sobre quanto joga ou aposta. As respostas são registradas no prontuário eletrônico.

Veja também: Procon do Rio de Janeiro divulga cartilha com orientações sobre riscos das bets e prevenção ao endividamento

Na primeira semana de aplicação, 3.070 pacientes responderam ao questionário. Desse total, 22 afirmaram já ter sentido necessidade de aumentar os valores apostados, enquanto 15 disseram ter escondido de familiares ou pessoas próximas quanto gastaram com jogos. Quase 1% apresentou ao menos um sinal considerado de alerta.

Uma resposta positiva, no entanto, não representa automaticamente um diagnóstico de dependência. Nesses casos, o paciente passa por uma avaliação mais detalhada para determinar o nível de risco e o tipo de acompanhamento necessário.

Segundo informou o g1, o secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado, destacou que a iniciativa busca identificar principalmente pessoas que dificilmente procurariam atendimento especificamente por causa das apostas. O problema, segundo ele, pode chegar aos serviços de saúde associado a outras queixas.

“É difícil uma pessoa chegar e falar: ‘eu tenho um problema com jogos’. Não é algo simples”, afirmou. Ansiedade, insônia e depressão estão entre os sintomas que podem aparecer associados aos casos, explicou ao g1.

Levantamento identificou mais de 1,3 mil relatos relacionados às apostas

Antes de ampliar o rastreamento, a Secretaria Municipal de Saúde analisou prontuários eletrônicos e encontrou 1.378 pessoas com registros relacionados a sofrimento provocado por apostas, seja envolvendo o próprio paciente ou familiares. Entre aqueles identificados como apostadores que procuraram ajuda, quase 60% eram homens. A idade mediana era de 37 anos e 53% tinham entre 18 e 39 anos.

Veja também: Pesquisa mostra que quase metade dos apostadores do Rio de Janeiro busca renda nas bets

O levantamento também apontou diferenças entre os familiares afetados. Nesse grupo, 85% eram mulheres, com idade mediana de 45 anos, principalmente mães e esposas de apostadores. Outro dado que chamou a atenção da Secretaria foram encontrados registros envolvendo 25 menores de 18 anos, sendo 22 meninos. A participação de menores em apostas é proibida no Brasil.

Atendimento pode começar na Atenção Primária

O rastreamento está disponível em cerca de 240 unidades, entre Clínicas da Família e Centros Municipais de Saúde. A estrutura reúne mais de 1.300 equipes de Saúde da Família. O tratamento é definido de acordo com o risco identificado. Situações consideradas menos graves podem continuar sendo acompanhadas pela própria Atenção Primária, com orientações de prevenção e redução de danos.

Veja também:Ministério da Saúde amplia os teleatendimentos mensais a pessoas com compulsão por apostas online

Para pacientes classificados com risco moderado, o atendimento pode envolver equipes multiprofissionais, incluindo psicólogos e psiquiatras. Casos de maior gravidade ou sofrimento intenso podem ser direcionados à rede de atenção psicossocial. O município dispõe de 40 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Entre as medidas que podem ser apresentadas aos pacientes está o uso de mecanismos de autoexclusão que permitem bloquear o próprio acesso às plataformas de apostas.

Neste artigo:
Apostas problemáticas Atenção Primária Brasil Rio de Janeiro Saúde pública