Reportagem especial: uma cronologia de como o Brasil construiu seu marco regulatório para jogos online

Reportagem especial: uma cronologia de como o Brasil construiu seu marco regulatório para jogos online

A Focus Gaming News analisa como o maior país da América Latina regulamentou a indústria de jogos online.

Reportagem especial: Em 30 de dezembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 14.790/2023 , pondo fim a 78 anos de proibição total de jogos de azar no Brasil. Não foi um ato impulsivo; por trás daquela assinatura, estavam anos de debates parlamentares, uma pandemia que acelerou o crescimento do mercado ilegal e uma realidade inequívoca: milhões de brasileiros apostavam diariamente em plataformas não licenciadas, sem proteção e sem que o dinheiro fosse para o governo.

Este é o segundo de uma série de artigos especiais que analisam a evolução da indústria de jogos de azar na última década, os desafios que enfrentou e o que o futuro reserva. Nesta reportagem especial, a Focus Gaming News examina como o Brasil se tornou um dos mercados mais importantes do setor de jogos online.

78 anos de proibição: o contexto

Em 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu o jogo no país por decreto, proibição que permaneceu em vigor por quase oito décadas. No entanto, a medida nunca funcionou completamente. Com o tempo, os brasileiros encontraram maneiras de apostar: primeiro por meio do “jogo do bicho” (um formato de loteria ilegal baseado em números que representam animais), depois em países vizinhos como Uruguai e Paraguai e, finalmente, com a chegada da internet, em plataformas offshore que operavam no exterior sem quaisquer restrições locais.

O mercado de apostas esportivas foi o segmento de crescimento mais rápido da última década no país. A combinação de uma cultura futebolística singular, a crescente penetração da telefonia móvel e a expansão dos aplicativos de apostas transformaram o Brasil em um dos maiores mercados do mundo.

As estimativas do tamanho do mercado ilegal antes da regulamentação variavam consideravelmente dependendo da fonte, mas todas concordavam que era enorme, e isso dava origem a dois grandes problemas: nenhum centavo desse dinheiro era tributado no Brasil, e os participantes não tinham nenhuma proteção formal.

O caminho para a legalização

O processo que levou à legalização e regulamentação do mercado de jogos online foi longo e complexo. Antes da aprovação da Lei nº 14.790/2023, o Brasil já havia dado seu primeiro passo formal em 2018 com a aprovação da Lei nº 13.756/2018, que estabeleceu as apostas esportivas com cotas fixas como modalidade de loteria. Essa lei autorizou apostas em eventos esportivos reais, em que os ganhos potenciais são conhecidos no momento da aposta. No entanto, essa lei apenas estabeleceu a categoria, deixando a tarefa de emitir regulamentações detalhadas para o Ministério da Fazenda. Essas regulamentações nunca foram emitidas dentro do prazo original de quatro anos. Na prática, isso deixou o mercado em um limbo jurídico, autorizado em princípio, mas operando sem um marco regulatório específico ou mecanismos de supervisão.

Em paralelo, projetos de lei mais abrangentes para regulamentar os jogos de azar circularam no Congresso durante anos, impulsionados por setores que viam a regulamentação como uma forma de gerar receita tributária e combater o mercado ilegal. No entanto, houve forte pressão de diversos setores para impedir o avanço dos projetos até a chegada da pandemia de Covid-19 em 2020, que mudou tudo: com as pessoas confinadas em suas casas, as plataformas de jogos online experimentaram um crescimento explosivo no Brasil, tornando ainda mais evidente a necessidade de um marco regulatório.

O ano de 2023 foi decisivo para viabilizar a implementação do mercado regulamentado de apostas de odds fixas no Brasil. Embora a Lei nº 14.790/2023 só tenha sido sancionada em dezembro daquele ano, o trabalho de estruturação do marco regulatório já havia começado meses antes e se intensificou após a publicação da Medida Provisória 1.182, em 25 de julho de 2023.

Nesse contexto, o Ministério da Fazenda iniciou a construção das bases institucionais e regulatórias necessárias para a futura abertura do mercado regulamentado. Em outubro de 2023, foi publicado o primeiro ato regulatório estrutural — a Portaria Normativa MF nº 1.330 —, que estabelece as diretrizes gerais, incluindo proteção do consumidor, proteção de dados, jogo responsável e publicidade. Realizou-se também uma prévia manifestação de interesse, com a participação de mais de 130 empresas nacionais e estrangeiras, demonstrando o alto nível de interesse econômico no mercado brasileiro.

As autoridades também começaram a desenvolver o Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP), a estruturação do futuro Secretariado de Prêmios e Apostas (SPA) e a elaboração das regras que constituirão a Agenda Regulamentar de 2024.

Naquela altura, porém, não existia uma estimativa fiável e validada da dimensão real do mercado. Recordando esse período, Simone Vicentini, especialista em direito constitucional e administrativo e antigo secretário-adjunto da Autoridade de Proteção de Jogos (SPA), afirmou: “Desde a promulgação da Lei n.º 13.756/2018, que legalizou as apostas desportivas com odds fixas, a atividade desenvolvia-se sem regulamentação específica, o que fomentava um crescimento rápido e desorganizado, sem mecanismos adequados de supervisão estatal, cobrança de impostos ou proteção dos jogadores. A criação do quadro regulamentar através da Lei n.º 14.790/2023 visava precisamente trazer transparência, segurança jurídica, integridade e mecanismos de controlo eficazes a um setor que já movimentava somas significativas no país.”

Udo Seckelmann, sócio da área de Jogos de Azar e Criptomoedas do escritório Bichara e Motta Advogados, compartilhou sua visão sobre as decisões mais críticas que o SPA teve que tomar durante aquele período inicial: “Do ponto de vista jurídico, as decisões mais críticas estavam diretamente ligadas à construção de uma estrutura de compliance sólida. O SPA optou por estabelecer, desde o início, requisitos detalhados em questões como prevenção à lavagem de dinheiro, identificação do usuário (KYC), jogo responsável e integridade esportiva. Isso elevou o padrão do mercado brasileiro e exigiu que as operadoras estruturassem operações altamente sofisticadas, alinhadas às melhores práticas internacionais.”

Ao refletir sobre esse trabalho inicial, Vicentini recordou: “Partimos de um amplo estudo comparativo dos principais mercados regulamentados do mundo, identificando boas práticas, modelos de supervisão, mecanismos de proteção ao consumidor e marcos de combate à lavagem de dinheiro. Com base nessas referências, desenvolvemos um modelo regulatório compatível com a realidade brasileira e com os limites estabelecidos pela Lei nº 14.790/2023.”

Ao mesmo tempo, foi necessário estruturar uma nova unidade administrativa praticamente do zero, o que acarretou desafios institucionais, orçamentários, tecnológicos e de gestão de pessoal. Em pouco mais de um ano, foi preciso regulamentar um setor complexo, construir sistemas, definir requisitos de autorização, estabelecer mecanismos de inspeção e sanção e preparar o lançamento do mercado regulamentado.

“Dada a magnitude da tarefa e o número limitado de funcionários disponíveis, os desafios foram consideráveis. Mesmo assim, foi possível entregar, dentro do cronograma planejado, uma estrutura regulatória ampla e suficientemente robusta para permitir que o mercado regulamentado iniciasse suas operações em 1º de janeiro de 2025.”

Janeiro de 2025: mercado de igaming do Brasil é lançado oficialmente

O marco regulatório para jogos de azar online no Brasil entrou em vigor em  1º de janeiro de 2025, com 14 licenças definitivas, concedidas a operadores que cumpriram todos os requisitos dentro do prazo, e 52 licenças provisórias para aqueles que ainda estavam em processo de adequação a certos aspectos da regulamentação. No total, 66 operadores entraram legalmente no mercado brasileiro nessa data.

O perfil dos primeiros licenciados era uma mistura de empresas internacionais com experiência em múltiplas jurisdições regulamentadas, operadores regionais com presença consolidada na América Latina e algumas empresas locais.

A Focus Gaming News conversou com Celina Guedes, diretora regional para o Brasil da EGT, Andre Medeiros, gerente nacional para o Brasil da Brazino777, Carla Dualib, gerente regional de desenvolvimento de negócios (América Latina) da SOFTSWISS, e um porta-voz da 1xBet sobre quais aspectos do mercado brasileiro mais chamaram a atenção deles ao desenvolver uma estratégia para o país, as dificuldades que encontraram ao desenvolver produtos e soluções locais e suas opiniões sobre o estado atual do setor e como acreditam que ele evoluirá nos próximos anos.

Guedes afirmou que o que mais atraiu a atenção da EGT no Brasil foi “o enorme potencial de longo prazo do mercado e a diversidade de oportunidades tanto no segmento de jogos online quanto no de jogos presenciais”.

Ela acrescentou: “O Brasil combina um grande potencial de mercado com um ambiente regulatório em rápida evolução, criando fortes oportunidades para crescimento sustentável e investimento a longo prazo. Ao mesmo tempo, a dimensão do país, a diversidade regional e o dinamismo do cenário empresarial fazem dele um mercado que exige estratégias localizadas, flexibilidade tecnológica e um profundo conhecimento das necessidades dos operadores.”

Guedes também destacou a rápida adoção de plataformas digitais e métodos de pagamento como o PIX, que “criou um ambiente ideal para o rápido crescimento de jogos online, apostas esportivas e conteúdo de cassino”, e o potencial futuro dos jogos presenciais e das operações de terminais de videoloteria (VLT). “O Brasil tem todas as características para se tornar um dos principais mercados de jogos do mundo nos próximos anos — não apenas online, mas também por meio de casas de jogos, operações de máquinas caça-níqueis, cassinos e espaços de entretenimento, caso a regulamentação continue a evoluir positivamente”, afirmou.

Medeiros destacou a heterogeneidade interna do país como ponto de partida para qualquer estratégia: “O Brasil tem hábitos nacionais, mas comportamentos regionais, realidades de renda, referências culturais e níveis de maturidade digital diferentes. Para a Brazino777, a estratégia teve que partir desse entendimento. Por isso, testamos as campanhas de forma diferente em cada região do Brasil, porque o que parece natural em um lugar pode não ter o mesmo impacto em outro.”

Dualib afirmou que o mercado brasileiro se destacava por estar “evoluindo rapidamente, mesmo para os padrões globais de jogos online”. Segundo ela, a regulamentação se desenvolvia quase em tempo real, e as informações eram frequentemente fragmentadas, mudavam rapidamente ou simplesmente não estavam disponíveis em uma única fonte centralizada.

Ela explicou que isso criou uma oportunidade clara para a SOFTSWISS. Em vez de esperar que o mercado se estabilizasse, a empresa decidiu agir rapidamente, monitorar de perto os desenvolvimentos regulatórios, manter comunicação direta com as partes interessadas locais e preparar seus produtos para certificação antes de muitos concorrentes. “Ser proativo nos deu uma importante vantagem estratégica”, disse Dualib.

Dualib também destacou a paixão do Brasil pelo esporte como um fator decisivo na construção de uma estratégia para o mercado. Em sua visão, o esporte faz parte da identidade nacional e da cultura emocional do país, e compreender essa conexão foi essencial para moldar tanto o produto quanto a estratégia de comunicação. Ela também enfatizou a importância do networking local, afirmando que o Brasil é um mercado onde os relacionamentos importam profundamente e onde o diálogo contínuo com operadores, reguladores e associações comerciais é tão importante quanto a própria tecnologia.

Em sintonia com Medeiros, o porta-voz da 1xBet enfatizou as diferenças culturais internas do Brasil e a diversidade de um país tão grande, além de destacar a paixão dos brasileiros por apostas: “Os brasileiros, em geral, consideram o jogo parte de sua cultura”.

Sobre o desafio de desenvolver produtos e soluções para o mercado, Guedes afirmou que era “ao mesmo tempo empolgante e desafiador, pois o mercado possui características muito singulares em comparação com outras jurisdições regulamentadas” e explicou que um dos maiores desafios iniciais foi compreender a fundo a jornada do consumidor local — desde as preferências de pagamento e o comportamento de apostas até o tom da comunicação e as expectativas do usuário.

Do ponto de vista operacional, segundo Guedes, o quadro regulatório em constante evolução exigia flexibilidade e adaptação contínua. “O mercado estava se movendo rapidamente e as empresas precisavam estar preparadas para ajustar as estratégias de compliance, marketing e operações praticamente em tempo real”, afirmou, acrescentando: “Superamos esses desafios construindo parcerias locais sólidas, investindo em talentos brasileiros, ouvindo atentamente o feedback dos usuários e mantendo uma abordagem interna muito ágil. Ter equipes que realmente entendem a cultura local fez toda a diferença.”

Dualib concordou com essa opinião e afirmou que um dos maiores desafios era a constante evolução regulatória e a falta de informações sincronizadas. “Os requisitos mudavam rapidamente, às vezes com pouca clareza, e o próprio mercado evoluía em paralelo com a regulamentação”, explicou ela.

Segundo Dualib, o desafio não era apenas tecnológico, mas também operacional, exigindo equipes capazes de reagir rapidamente e trabalhar de forma altamente coordenada para implementar mudanças praticamente em tempo real. “Honestamente, isso ainda está acontecendo hoje. Mesmo após mais de um ano de operações regulamentadas, o mercado continua evoluindo”, afirmou.

Ela acrescentou que esse foi um dos motivos pelos quais a SOFTSWISS se tornou “a primeira fornecedora de tecnologia a aderir à ANJL”. Para a empresa, era importante não apenas participar comercialmente do mercado, mas também contribuir para o diálogo do setor e ajudar a construir um ecossistema mais maduro e sustentável em conjunto com reguladores e operadores.

Medeiros afirmou que o maior desafio é que os players brasileiros são os que definem o padrão. Segundo ele, a experiência precisa ser simples, os pagamentos precisam ser claros, o suporte precisa entender o contexto local e a marca precisa parecer familiar sem parecer forçada. “Inicialmente, o desafio era conectar todos esses detalhes em uma experiência consistente. Produto, pagamentos, suporte, conformidade e comunicação não podem funcionar separadamente no Brasil. A maneira de superar isso é tratar a localização como uma disciplina operacional, não como um projeto de tradução”, disse ele.

Nesse ponto, o representante da 1xBet afirmou que o principal desafio era encontrar algo em comum em um país tão multicultural quanto o Brasil, e esse algo é, sem dúvida, o futebol. “Entender que esse esporte é uma verdadeira paixão nacional é o primeiro passo para conquistar o público brasileiro”, disse ele. Outro grande desafio, acrescentou, era compreender como e onde o público brasileiro interessado em apostas consome conteúdo sobre futebol, para comunicar de forma eficaz as principais vantagens da plataforma aos potenciais jogadores.

Dualib também apontou a educação e a percepção como desafios importantes. Em sua visão, ainda existe um considerável desconhecimento em torno dos jogos online regulamentados no Brasil, e parte do papel da SOFTSWISS é ajudar a explicar o setor de uma forma mais equilibrada e transparente — não apenas de uma perspectiva comercial, mas também do ponto de vista da proteção do jogador, do jogo responsável e da sustentabilidade do mercado a longo prazo.

Com base em sua experiência assessorando diversas operadoras agora licenciadas no Brasil, Seckelmann afirmou: “O desafio de conformidade mais complexo foi, sem dúvida, a adaptação simultânea a múltiplas frentes regulatórias em um curto período de tempo. As operadoras tiveram que estruturar políticas e práticas internas de KYC (Conheça Seu Cliente), AML (Antilavagem de Dinheiro), integridade esportiva, jogo responsável e governança, muitas vezes ajustando sistemas globais para atender às especificidades brasileiras. Isso exigiu um investimento tecnológico significativo, além da implementação meticulosa das regulamentações.”

O desafio do mercado ilegal

Um dos debates mais importantes em torno da abertura do mercado brasileiro de jogos online — e que continua até hoje — é o do mercado ilegal. A regulamentação não resulta automaticamente no desaparecimento dos operadores não licenciados: em todos os mercados onde os jogos online foram regulamentados, a luta contra o jogo ilegal nunca terminou de fato.

O Brasil não foi exceção. Na época da abertura, centenas de plataformas não licenciadas ainda operavam ativamente e atraíam jogadores brasileiros. A SPA implementou mecanismos de bloqueio de sites e restrições de pagamento para operadores não licenciados desde o início, mas a eficácia dessas medidas dependia da rapidez e consistência de sua aplicação — algo que, em um mercado do tamanho do Brasil, representava um desafio logístico considerável.

Seckelmann explicou que “a fiscalização contra operadores não licenciados ainda está em fase de consolidação, mas já houve progressos relevantes, especialmente no uso de medidas como o bloqueio rápido de domínios e restrições de pagamento. Essas ferramentas são juridicamente sólidas e, se aplicadas de forma consistente e correta, tendem a reduzir significativamente a presença do mercado ilegal ao longo do tempo.”

Segundo o sócio da Bichara e Motta, o sucesso nessa luta é fundamental para o mercado regulamentado: “Manter um ambiente regulatório competitivo é essencial, pois mercados excessivamente onerosos tendem a incentivar a migração para operadores não licenciados.”

Vicentini acrescentou: “A proteção do jogador sempre esteve no centro da construção regulatória do mercado brasileiro de apostas de odds fixas. O motivo é simples: desde o início, ficou claro que a legitimidade e a sustentabilidade do mercado regulamentado dependeriam da capacidade de proteger os consumidores e garantir a integridade do setor. As apostas envolvem riscos inerentes relacionados ao comportamento do consumidor, possível superendividamento, uso indevido da atividade para fins ilícitos e assimetria de informações entre operadores e apostadores. Portanto, entendeu-se que a construção de um ambiente regulamentado seguro, transparente e confiável deveria ter prioridade sobre qualquer objetivo de receita ou econômico.”

O marketing e a publicidade de jogos de azar adicionaram mais uma camada de complexidade. O patrocínio de jogos de azar nas camisas de clubes de futebol havia proliferado nos anos anteriores à regulamentação, criando uma visibilidade de marca que não desapareceu automaticamente com a abertura do mercado legal. O debate sobre a regulamentação da publicidade de jogos de azar rapidamente se tornou um tema de discussão na agenda política e midiática do Brasil.

Os debates e a apresentação de projetos de lei para intensificar os esforços contra o jogo ilegal, a proteção dos jogadores, as restrições à publicidade e o tratamento dos influenciadores que promovem o jogo em seus canais de mídia social continuam até hoje.

Vicentini afirmou: “Desde as primeiras regras, o objetivo era garantir que a exploração econômica da atividade fosse acompanhada por mecanismos eficazes de proteção ao usuário, incluindo regras de publicidade responsável, deveres de informação, conformidade com o Código de Proteção do Consumidor e a Lei Geral de Proteção de Dados.

“Essa abordagem foi ainda mais desenvolvida por meio de diversos atos regulatórios subsequentes. Entre eles, destaca-se a Portaria SPA/MF nº 615, de abril de 2024, que estabelece regras para transações de pagamento e incorpora importantes mecanismos de proteção ao jogador, incluindo a proibição do uso de cartões de crédito e quaisquer instrumentos de pós-pagamento para a realização de apostas — uma medida alinhada às melhores práticas internacionais para a prevenção do superendividamento e a promoção do jogo responsável.”

“Por sua vez, a Portaria SPA/MF nº 1.231 de julho de 2024 regulamentou detalhadamente os direitos e deveres dos operadores e apostadores, os procedimentos de identificação e autenticação, os mecanismos de jogo responsável, os programas de recompensas, os requisitos de registro e as medidas destinadas à prevenção da fraude e à proteção do consumidor.

“No que diz respeito à prevenção do branqueamento de capitais, do financiamento do terrorismo e de outros crimes conexos, a Portaria SPA/MF n.º 1.143/2024 estabeleceu um conjunto robusto de obrigações em matéria de governança, avaliação de riscos, identificação de clientes, monitorização de transações e comunicação de atividades suspeitas, incorporando práticas internacionalmente reconhecidas e alinhadas com as normas de organismos como o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI).”

O estado atual da indústria

Quase um ano e meio se passou desde o lançamento do jogo online regulamentado no Brasil.

Compartilhando sua visão sobre o setor, Guedes disse: “O mercado está se tornando cada vez mais competitivo. Estamos vendo um processo natural de consolidação, no qual as marcas com maior conformidade, melhor tecnologia e estratégias de investimento de longo prazo estão se destacando. Os custos de aquisição de clientes aumentaram significativamente, tornando o posicionamento e a retenção da marca mais importantes do que nunca.”

“Outro desenvolvimento interessante é a crescente profissionalização do ecossistema. As operadoras estão investindo mais em dados, jogo responsável, experiência do cliente e estratégias de conteúdo localizado. O público brasileiro também está se tornando mais informado e exigente, o que impulsiona o setor a buscar padrões mais elevados em geral.”

Medeiros acrescentou: “O mercado brasileiro está se profissionalizando, mas também se tornando mais realista. A primeira onda foi repleta de entusiasmo: grandes números, grandes campanhas, grandes expectativas. Agora, os operadores estão percebendo o custo real de construir um negócio sustentável aqui.”

“A regulamentação não apenas traz legitimidade, como também altera a dinâmica do mercado: padrões de conformidade mais elevados, maior pressão sobre o marketing, expectativas mais fortes em relação a pagamentos, suporte e jogo responsável. Portanto, a discussão está mudando de ‘qual o tamanho máximo que o Brasil pode atingir?’ para ‘quem consegue operar bem o suficiente para se manter competitivo aqui?’”

“Para mim, esta é uma fase necessária. O Brasil ainda tem um enorme potencial, mas o mercado está se tornando um teste de disciplina e eficiência.”

Dualib afirmou que o mercado fez progressos enormes em um curto período, mas ainda enfrenta debates importantes pela frente. Em sua opinião, as discussões políticas em torno da tributação e até mesmo do futuro do jogo regulamentado permanecem ativas, mas a questão principal deve ser mais ampla do que apenas impostos.

“Um mercado regulamentado existe, antes de tudo, para proteger os jogadores”, disse ela. “Ele cria transparência, responsabilidade, mecanismos de jogo responsável, tecnologia certificada e condições mais seguras para os consumidores.” Dualib alertou que um dos maiores riscos para qualquer mercado regulamentado emergente é o de levar os jogadores de volta a plataformas não licenciadas por meio de restrições excessivas ou regulamentação exagerada, algo que, segundo ela, já aconteceu em outras jurisdições ao redor do mundo.

O porta-voz da 1xBet destacou que o mercado brasileiro foi regulamentado levando em consideração as práticas bem-sucedidas implementadas em outras jurisdições, o que ele descreveu como um passo positivo. “Daqui para frente, o desenvolvimento contínuo do mercado regulamentado dependerá de marcos legais e tributários claros, bem como de medidas eficazes para combater o jogo ilegal no país”, acrescentou.

O que ainda precisa ser resolvido?

O mercado brasileiro permanece, em muitos aspectos, um trabalho em andamento. Os debates estão em curso e, embora tudo indique que o setor continue a se consolidar, nem tudo está definido.

Em março, o próprio Lula causou alvoroço ao declarar publicamente, no Dia Internacional da Mulher, que deseja proibir novamente os cassinos digitais. Em seu discurso, o presidente afirmou: “É o dinheiro para comida, aluguel, escola dos filhos que desaparece na tela do celular” e, em entrevista posterior, disse que, se dependesse dele, já teria fechado todos os sites de apostas online que operam atualmente no país.

As declarações de Lula desencadearam um grande debate político, com vozes a favor e contra. Em abril, o deputado Pedro Uczai, do Partido dos Trabalhadores, apresentou o projeto de lei PL-1808/2026  no Congresso, buscando a proibição nacional de todos os jogos de azar online.

Por outro lado, a própria indústria, juntamente com especialistas e advogados especializados, manifestou-se contra as propostas de Lula e Uczai , argumentando que uma proibição causaria danos não só econômicos, mas também sociais, ao reabrir as portas ao mercado ilegal.

Seckelmann considerou que o principal desafio regulatório para o Brasil será, sem dúvida, o combate ao mercado ilegal. “Trata-se de um problema estrutural em jurisdições recentemente regulamentadas, como é o caso do Brasil. Embora o país já disponha de instrumentos relevantes, sua eficácia dependerá da aplicação consistente e coordenada dessas medidas ao longo do tempo. Será também essencial que as decisões regulatórias sejam cada vez mais baseadas em dados empíricos e evidências de mercado, em vez de pressões políticas de curto prazo. Movimentos impulsionados pelo populismo tendem a gerar instabilidade e insegurança jurídica, o que afasta investimentos e enfraquece o próprio mercado regulamentado. Um ambiente previsível, fundamentado em dados e experiência internacional, é condição essencial para o sucesso do setor a longo prazo.”

O paradoxo político também é difícil de ignorar. O mesmo governo que considera proibir o mercado arrecadou R$ 9,9 bilhões (US$ 1,96 bilhão) em impostos relacionados a jogos de azar em 2025.

Segundo analistas e especialistas, o cenário mais provável a curto prazo não é uma proibição total, mas sim uma regulamentação mais rigorosa: restrições mais rígidas à publicidade, limites de apostas mais baixos e a extensão da proibição aos beneficiários de programas de assistência social. Em maio, o programa “Novo Desenrola Brasil” também entrou em vigor por meio de uma medida provisória, que estabelece uma proibição de 12 meses para jogos de azar online para pessoas que aderirem a esse novo esquema de refinanciamento da dívida pública.

Guedes apresentou uma visão otimista sobre o futuro do setor: “Acredito que o Brasil tem potencial para se tornar um dos mercados de jogos regulamentados mais importantes do mundo nos próximos anos. Provavelmente veremos uma consolidação mais forte entre as operadoras, maior sofisticação tecnológica e um foco maior no crescimento sustentável em vez de uma expansão agressiva de curto prazo.”

“Inteligência artificial, personalização, automação de CRM e estratégias de engajamento baseadas em dados desempenharão um papel muito maior no futuro. As empresas que realmente entenderem o comportamento do jogador e puderem oferecer experiências personalizadas e responsáveis ​​terão uma vantagem competitiva significativa.”

No entanto, Guedes alertou que o setor também enfrentará desafios importantes. “A evolução regulatória continuará exigindo adaptações, especialmente em relação às regras de publicidade, jogo responsável, tributação e padrões de conformidade. Equilibrar o crescimento com a proteção do consumidor será fundamental para a sustentabilidade do mercado a longo prazo.”

Ela acrescentou: “Outro grande desafio será a diferenciação. Com a intensificação da concorrência, simplesmente oferecer uma plataforma de apostas não será mais suficiente. As marcas precisarão construir conexões emocionais mais fortes com os usuários por meio de entretenimento, conteúdo, parcerias e experiência do cliente.”

Dualib também afirmou que o Brasil está atualmente atravessando o que ela descreveu como “um período turbulento”, o que considera natural para um mercado regulamentado jovem dessa escala. Nos próximos anos, ela espera que o mercado se torne significativamente mais maduro e estruturado, com práticas de jogo responsável mais robustas, mais conteúdo certificado, padrões de conformidade mais rigorosos e uma cooperação mais profunda entre operadores, fornecedores de tecnologia, reguladores e associações do setor.

“O jogo responsável se tornará especialmente importante”, disse ela. “Já vemos uma crescente adoção de ferramentas de proteção ao jogador e conversas muito mais sérias sobre sustentabilidade e bem-estar do jogador.”

Ao mesmo tempo, Dualib argumentou que o mercado ainda precisa encontrar o equilíbrio certo entre regulamentação e viabilidade comercial. “O objetivo final não deve ser simplesmente uma regulamentação mais rigorosa”, disse ela, “mas sim a construção de um ecossistema saudável onde os operadores regulamentados permaneçam competitivos e os participantes se mantenham dentro do mercado legal”. Ela acrescentou que a colaboração do setor será essencial porque “nenhuma empresa sozinha pode resolver esses desafios”.

Medeiros afirmou que a parte fácil acabou e que agora será mais caro competir, mais difícil conquistar jogadores e mais difícil retê-los se o produto não for bom. Ele também levantou a questão do mercado ilegal, observando que os cassinos licenciados devem investir em conformidade, jogo responsável, impostos, controles e suporte adequado ao cliente — “e isso é o correto a se fazer” — mas alertou que, se os operadores ilegais continuarem a alcançar jogadores sem as mesmas regras, “o mercado se torna injusto e os jogadores ficam menos protegidos”.

“Portanto, os próximos anos serão dedicados a provar que o mercado regulamentado pode ser mais seguro e atraente. Os participantes do mercado não escolherão marcas legais apenas por serem legais. Eles as escolherão somente se a experiência for melhor”, disse ele.

O porta-voz da 1xBet vê o futuro do Brasil como um processo de amadurecimento: “Espera-se que os próximos anos se tornem um período de amadurecimento do mercado. O marco regulatório, a sociedade e os usuários desenvolverão uma compreensão mais profunda do papel do setor, e esse processo criará condições para um crescimento sustentável. A paciência durante esse período, juntamente com fortes esforços na área do jogo responsável, será essencial para a construção de um mercado justo e próspero.”

Por sua vez, a ex-secretária-adjunta da SPA afirmou que o ambiente regulamentado deve permanecer competitivo, seguro e economicamente viável tanto para as operadoras quanto para os consumidores. Ela também ressaltou que, olhando para o futuro, será essencial “fortalecer a capacidade institucional da SPA, ampliando seus recursos tecnológicos, infraestrutura e quadro de funcionários de acordo com a escala do mercado brasileiro”.

Vicentini também abordou o mercado ilegal, afirmando que o combate aos operadores ilegais continuará sendo “uma condição indispensável para o sucesso do modelo regulatório brasileiro”, e acrescentou: “Isso implica em fiscalização, cooperação institucional, bloqueio de operações irregulares, conscientização do consumidor e fortalecimento dos mecanismos de supervisão, controle e sanções”.

Por fim, Vicentini afirmou que é essencial preservar o equilíbrio regulatório. “A proteção do consumidor deve continuar sendo uma prioridade, mas sempre acompanhada de avaliações baseadas em evidências. Nem toda medida restritiva produz necessariamente melhores resultados. O grande desafio será encontrar o equilíbrio entre proteção, competitividade, arrecadação de receitas, inovação, direcionamento para o mercado regulado e a sustentabilidade do setor a longo prazo”, disse ela.

Com as eleições gerais marcadas para outubro de 2026, o debate sobre jogos online tornou-se um tema central da campanha eleitoral, e o mercado brasileiro enfrenta um momento de incerteza. No entanto, o que foi conquistado a partir de janeiro de 2025, sem dúvida, marcou um antes e um depois no setor, não apenas na América Latina, mas em todo o mundo, e isso será difícil de ignorar.

Este artigo é a segunda parte de uma série produzida pela Focus Gaming News para comemorar seu décimo aniversário. Ao longo de 2026, os artigos examinarão os momentos mais marcantes que moldaram a indústria global de jogos online entre 2016 e 2026, desde mudanças regulatórias e aberturas de mercado até transformações tecnológicas e o surgimento de novas regiões. Cada artigo será acompanhado por entrevistas exclusivas com executivos, reguladores e analistas que participaram dessas mudanças.

Veja também:

Relatório especial 1 : A evolução do mercado europeu de jogos online: de monopólios a uma indústria regulamentada

Neste artigo:
Apostas esportivas Brasil Indústria de jogos Regulamentação do jogo