Valter Delfraro, Oddsgate: “O Brasil deixou de ser apenas uma oportunidade e passou a ser um mercado que exige presença real e visão de longo prazo”

Valter Delfraro, diretor de Assuntos Regulatórios da Oddsgate
Valter Delfraro, diretor de Assuntos Regulatórios da Oddsgate

Especialista analisa os efeitos da nova fase regulatória no Brasil, destaca os desafios para fornecedores B2B.

Entrevista exclusiva.- À medida que o mercado de apostas regulamentado do Brasil se move para uma fase mais estruturada e exigente, os fornecedores estão sendo pressionados a repensar não apenas suas pilhas de tecnologia, mas também sua presença física e compromisso de longo prazo com a região. Neste contexto, a localização já não é opcional, é um requisito estratégico.

Nesta entrevista exclusiva à Focus Gaming News, Valter Delfraro, diretor de assuntos regulatórios da Oddsgate, explica por que a empresa deu o passo decisivo de abrir um escritório físico em São Paulo, e como esse movimento reflete uma mudança mais ampla em direção à proximidade, alinhamento regulatório e agilidade operacional na América Latina.

Desde a navegação no cenário de conformidade no Brasil até a priorização de mercados como México e El Salvador, a Delfraro descreve como a Oddsgate está se aproximando da expansão através do que chama de “tropicalização” – uma estratégia profundamente localizada projetada para lidar com a fragmentação da região.

Quais são as principais razões estratégicas por trás da decisão da Oddsgate de abrir um escritório físico em São Paulo, e como essa presença local muda a operação no dia a dia no Brasil?

O Brasil deixou de ser apenas uma oportunidade e passou a ser um mercado que exige presença real e visão de longo prazo. Nesse contexto, estar em São Paulo faz uma diferença concreta.

Estamos operando em um ambiente regulatório que evolui rapidamente, e estar próximo do mercado nos ajuda a acompanhar de perto o que realmente está acontecendo, seja entendendo expectativas, fortalecendo relações com parceiros ou tendo uma leitura mais precisa do cenário.

Essa proximidade se traduz naturalmente em decisões melhores, execução mais ágil e soluções mais alinhadas à realidade local. Mais do que isso, demonstra o quanto levamos a sério nosso papel no mercado brasileiro e nosso compromisso em fazer parte do seu desenvolvimento.

Ao expandir para a América Latina, quais países além do Brasil estão na lista de prioridades e quais desafios vocês enxergam nessas regiões?

A América Latina é uma região extremamente promissora, mas com um nível de complexidade que não pode ser ignorado. Além do Brasil, nosso foco atual está principalmente no México e em El Salvador.

O México, pelo seu tamanho e crescimento, é naturalmente um dos mercados mais relevantes da região, com projeções de receita em igaming superiores a US$ 3 bilhões. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa da atividade ainda opera fora de ambientes regulados, o que torna o compliance uma questão central.

El Salvador, por outro lado, representa um tipo diferente de oportunidade. É um mercado emergente, mas com fundamentos interessantes, incluindo uma economia dolarizada e uma estabilidade macroeconômica em evolução. Isso cria espaço para empresas que desejam entrar cedo e crescer junto com o mercado.

Em toda a região, o principal desafio é a fragmentação. Cada mercado se comporta de forma distinta, tanto do ponto de vista regulatório quanto operacional, o que impede a adoção de uma estratégia única.

Por isso, nossa estratégia é baseada em uma forte adaptação local, que chamamos de “tropicalização”, ajustando desde meios de pagamento e comportamento do usuário até conteúdo e exigências regulatórias.

Em relação às recentes consultas públicas sobre legislação, como você avalia o atual cenário regulatório no Brasil, e quais os impactos específicos que você prevê para o setor B2B?

O lançamento da Consulta Pública no 1/2026 pela Secretaria de Prêmios e Apostas é um sinal claro de que o Brasil está entrando em uma fase regulatória mais estruturada e madura.

O que se destaca é o foco na definição de critérios de autorização e capacidade operacional para os principais prestadores de serviços. Isso muda a conversa para além dos operadores e começa a abordar todo o ecossistema, incluindo plataformas, provedores de jogos, verificação de identidade e serviços de dados.

A consulta aborda várias áreas importantes, como requisitos de certificação para fornecedores, normas técnicas e operacionais e o papel dos provedores terceirizados na garantia de conformidade. Também abre a porta para o alinhamento com benchmarks internacionais e melhores práticas, o que é essencial para construir credibilidade em um mercado recém-regulamentado.

Para o segmento B2B, o impacto é bastante significativo.

De um lado, traz mais segurança jurídica e transparência, fortalecendo a confiança e criando oportunidades mais estruturadas. Por outro lado, eleva a fasquia. Os fornecedores precisarão demonstrar não apenas a capacidade técnica, mas também estruturas de conformidade fortes e a prontidão operacional.

Isso segue uma tendência global mais ampla em que a regulamentação está se tornando mais exigente, empurrando a indústria para modelos mais eficientes e orientados para a tecnologia.

Na prática, a conformidade está se tornando um fator competitivo. As empresas que estão melhor preparadas, especialmente em termos de tecnologia, integração e compreensão regulatória, estarão em uma posição mais forte à medida que o mercado evolui.

Na Oddsgate, vemos isso como um passo necessário e estamos contribuindo ativamente para essas discussões para apoiar o desenvolvimento de um ecossistema mais sólido e sustentável.

Como a Oddsgate está preparando sua tecnologia e plataforma para garantir o pleno cumprimento das novas exigências brasileiras, uma vez que o mercado está totalmente regulamentado?

Nossa abordagem é antecipar, não reagir.

Estamos estruturando nossa plataforma para atender aos requisitos regulatórios desde o início, com um forte foco na conformidade por design. Isso inclui fluxos robustos de KYC, monitoramento contínuo e integração com ferramentas de jogos responsáveis.

Hoje, a indústria entende claramente que a eficiência operacional e a conformidade andam de mãos dadas, especialmente considerando que mais de 70% dos operadores estão priorizando a redução de custos e a escalabilidade por meio da tecnologia.

Outro fator crítico é a qualidade dos processos e da informação. O risco real não é a tecnologia em si, mas falhas operacionais que podem levar a inconsistências regulatórias. É por isso que estamos investindo fortemente no controle, validação e integração do sistema.

Nosso objetivo é simples: garantir que nossos parceiros entrem no mercado regulamentado totalmente preparados para operar de forma segura, eficiente e com confiança desde o primeiro dia.

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